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Coluna Políticas Públicas e Sociais: Obsolescência ( des )programada

DESTAQUES

Colunista, Historiador: Everton Villa ( Vevi )

Tenho quase quarenta anos mais ou menos bem vividos, não tenho muita certeza sobre viver bem ou simplesmente deixar a vida fluir. Sócrates era assim também. Por certo jamais me atreveria estabelecer qualquer tipo de comparação com o pai da filosofia ocidental, apenas cito o filósofo porque eu também tenho ciência das minhas ignorâncias.

Mas fato é que vivemos neste período de caos, de mudanças climáticas, de mudanças de atitudes e, sobretudo, de inversão de valores. Vivemos a era do avanço tecnológico, e tal avanço torna-se cada dia mais irredutível, imponderável, um verdadeiro cataclisma na vida daqueles que felizmente não nasceram nativos digitais.

Falo dos idosos, pessoas com mais de 60 anos (talvez bem melhores vividos do que os meus). Essas pessoas não tem familiaridade com “smarthphones”, “iphones”, nem mesmo conseguem adaptar-se a TV com toda variedade de aplicativos. Essas pessoas são de outros tempos. São pessoas de conversa mansa e demorada, afeitos às visitas em casa, aquelas que chegavam sem avisar, sem agendar, e que hoje não seriam tão bem recepcionadas quanto foram outrora.

Entendo a importância de toda essa tecnologia e a grandiosidade desse progresso, acho ainda que têm fins muito mais bélicos que evolucionistas, porém isso é outro papo, no entanto, reforço, esse avanço desenfreado tecnológico não respeita aqueles que não o compreendem.

Minha avó tem 83 anos, faz um sagu que Sócrates comeria de joelhos e teria ainda mais certeza de nada saber. Ela é extremamente comunicativa, os anos lhe fizeram bem, lhe deixaram com ares de sábia, justamente porque ela viveu e aprendeu a resolver seus problemas sem a ajuda de uma máquina, de um telefone ou do google.

Hoje fazemos tudo com a ajuda do google, escrevemos, pesquisamos, fofocamos, enfim, perdemos a faculdade de resolvermos nossas crises pelas nossas próprias resiliências, não sabemos mais como reagir, nem tentamos resgatar, puxar pela memória, simplesmente apelamos, sem nos darmos conta e sacamos do telefone como se fosse uma arma pronta pro disparo e “Pá, Google”!

Aos olhos de quem olha sem ver, não parece algo deveras problemático, mas observe, paciente leitor. Hoje pagamos nossas contas pelo telefone, as vezes aos domingos, no assado, entre um gole e outro da caipira, é um facilitador da vida cotidiana. Agora imagine uma pessoa com seus 70 anos, sem familiaridade com o telefone e morando sozinho, sem contatos próximos, em Porto Alegre.

Esse sujeito deve se deslocar até uma agência bancária para efetuar seus pagamentos, afinal, apesar da idade seus vencimentos ainda serão bem quistos pelo governo. Pense que talvez não tenha uma agência no bairro e seja preciso ir até o centro. Para chegar é necessário pegar dois, talvez três ônibus, ou um carro de aplicativo e desembolsar uma quantia considerável de dinheiro.

A vida de um idoso que vive só é realmente um dilema em cidades onde ninguém conhece ninguém e as mudanças, os avanços tecnológicos não respeitam o seu tempo e limitam seus passos, tirando-lhes a mobilidade, a dignidade de existir por si mesmos, ainda que em pleno gozo de suas faculdades.

Ainda somos uma sociedade excludente e aparentemente não estamos preocupados com isso. Não somos nada solícitos e as individualidades teimam em sobressair-se, sob qualquer hipótese e com o peso de um planeta acelerado levando tudo por diante. Aparências e marcas dão a tonalidade do que nos tornamos, nossa identidade é o que aparentamos ser, o que vestimos, o que usamos e nossa essência deve estar em algum lugar do passado, talvez em uma grande mesa com toda família reunida, onde nossos avós ainda sentam na ponta da mesa para almoçar e esperam o domingo passar calmamente, comendo sagu e chico balanceado, sem ter a menor noção do que o futuro reserva.

“Ter nascido me estragou a saúde”! (Clarice Lispector).

 

 

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