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Coluna Opinião Oculta: A Hipocrisia Brasileira: Entre o Direito de Exigir e o Dever de Cumprir

DESTAQUES

Colunista: Jones Scheit

O brasileiro tem uma habilidade quase artística de reivindicar direitos. Somos rápidos em apontar o dedo para o governo, para o vizinho, para o sistema. Exigimos saúde de qualidade, educação gratuita, segurança pública, justiça social. E com razão — muitos desses direitos são legítimos e constitucionais. Mas há um capítulo que teimamos em pular: o dos deveres.

Queremos receber, mas não queremos pagar. E não me refiro apenas a impostos, embora a sonegação seja um esporte nacional. Falo de algo mais sutil: o dinheiro que circula na economia precisa vir de algum lugar. O comerciante precisa vender para pagar o funcionário. O funcionário precisa trabalhar para receber o salário. O prestador de serviço precisa ser remunerado para continuar prestando. No entanto, quantos de nós já não tentaram “dar um jeitinho” para não pagar o que é devido? O famoso “desconto amigo”, o “acerta depois”, o “faz que nem viu”? Exigimos que os outros cumpram seus compromissos, mas quando a conta chega para nós, arrumamos uma desculpa.

Somos campeões em fingir que está tudo bem. Para a festa, estamos sempre prontos: sorriso no rosto, roupa nova, disposição para gastar. Mas quando a responsabilidade bate à porta — seja pagar uma dívida, cumprir um prazo, assumir um erro — damos um jeito de deixar para lá. O “deixa pra depois” virou mantra nacional. E, no fim, o que sobra? A culpa sempre recai sobre terceiros. O governo não presta, o patrão é explorador, o sistema é corrupto. Raramente paramos para olhar no espelho e perguntar: o que eu tenho feito para mudar isso?

Não estou falando de todo mundo. Sei que há brasileiros sérios, honestos, que pagam suas contas em dia, que respeitam o próximo, que cumprem seus deveres mesmo quando ninguém está olhando. Mas o fato é que a hipocrisia coletiva existe e é visível. Exigimos transparência dos políticos, mas escondemos renda do Leão. Queremos respeito no trânsito, mas furamos o sinal. Pedimos honestidade no comércio, mas tentamos levar vantagem em tudo.

De nada adianta exigir mudanças se nós mesmos não mudamos. É muito mais fácil apontar o dedo do que assumir responsabilidades. Mais cômodo culpar o sistema do que andar com os pés no chão. Mas a verdadeira transformação começa no individual. Antes de cobrar do outro, pergunte-se: eu estou fazendo a minha parte?

O Brasil não precisa apenas de leis melhores ou de governantes honestos. Precisa de cidadãos que entendam que direito e dever andam de mãos dadas. Enquanto continuarmos a festejar de um lado e a fugir das responsabilidades do outro, seremos sempre um país de promessas não cumpridas — e de hipocrisia escancarada.

Mude você. Depois, cobre o mundo.

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