Colunista, Historiador: Everton Villa ( Vevi )
Era a inquisição, século 16, cidade de Sevilha, na Espanha. Judeus, muçulmanos ou alguém que não fosse cristão deveria se converter ou deixar o reino de castela, as pessoas que recusassem o convertimento estariam sob o jugo do grande inquisidor e inexoravelmente seriam queimadas em uma fogueira gigantesca.
Depois de receber vários pedidos em formas de orações e súplicas, Jesus finalmente voltou. Os espanhóis eram um misto de comoção e espanto diante daquela figura de barbas grandes e cabelos compridos (um verdadeiro “rock star” setentista, aparentemente é assim que o ocidente enxerga Jesus).
Logo em sua chegada, Jesus ironicamente incrédulo com tamanha barbárie, ressuscita uma criança, a multidão silencia. O inquisidor não admite tamanho disparate, mesmo sendo Jesus, naquele reino de castela, diante dos fatos postos, ninguém estaria acima do poder do grande inquisidor, nessas circunstancias, Jesus é preso.
À noite, o inquisidor visita Jesus na cadeia, não pede desculpas, nem perdão, e sim o acusa por ter voltado, dizendo que as pessoas não querem liberdade, querem é comida, querem ter certeza, querem segurança, não por intermédio da paz, mas por meios tortuosos, onde o poder do mais forte vira virtude e certeza de proteção. Segundo o inquisidor, Jesus oferecia liberdade, o peso mais difícil que existe para ser carregado.
O inquisidor seguiu, dizendo que essa liberdade é demais e as pessoas não podem suportar carregá-lo, por isso a Igreja corrigiu esse erro divino, tirou a liberdade e depositou segurança e o povo teve paz! Jesus ouve tudo atentamente e calado, sem dizer palavra alguma, ao final, estende os braços e beija o rosto do inquisidor que estremece e manda soltar Jesus, ordena-lhe que vá embora e volta às torturas e perseguições.
Jesus ainda não voltou, confesso, um tanto atormentado, que já não tenho tanta certeza de tudo que acontece no globo ainda é problema dele. Esse fragmento é um trecho do livro: Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Esta foi a última obra do autor, escrita em 1880, sendo uma das maiores obras mundiais. Ela é tão impactante e relevante que mudaria para sempre os caminhos da filosofia.
Usei o fragmento como ponte justamente para tentar compreender quão poderosos foram reis e imperadores e o quanto são hoje, ainda mais poderosos, ainda mais bélicos e sádicos, correndo atrás de terras raras para terem em suas mãos toda tecnologia que puderem para a promoção de discursos de paz e segurança através de guerras, mortes e privações de liberdade.
É um escárnio, parece uma brincadeira de péssimo gosto, mas é a realidade, dura e cruel e sangrenta. Aviões que disparam o fogo da inquisição, drones kamikazes que nunca trazem boas-novas, um míssil que transporta ogivas nucleares, conhecido como Satã, mais uma infinidade de armas que desconheço, feitas para matar, sempre promovendo paz entre povos, de várias etnias, de distintas e ao mesmo tempo tão parecidas religiões e culturas.
Isso tudo desperta sentimentos de tristeza, de raiva e um complexo de impotência, maior, muito maior do que a fé que definitivamente eu não tenho, mas se tivesse, concluiria com desespero órfão: Somos discípulos de um preso político, condenado por dois poderes políticos, romano e judaico. Jesus foi preso, torturado e pendurado em uma cruz, a ordem veio desses poderosos, e, eu, cá na minha ignorância e curiosidade em querer aprender, a espera do novo, ignorantemente me pergunto: os torturadores serão os mesmos? E a culpa, Renato Russo, a culpa é de quem?
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