

Histórias curtas: Seletividade
A conversa seguia viva e um tanto mais entusiasmada após o terceiro copo de chopp.
Poucas coisas fazem muito sentido e são melhores que uma sexta à noite bebendo chopp
com amigos e resolvendo os problemas do país e quiçá do mundo, na mesa do bar,
batendo a cinza do cigarro depois de uma longa tragada enquanto se reflete internamente
a próxima frase de impacto.
-Não é possível! Em pleno 2024 ainda falarmos em guerra.
-Esse Putin deve estar mais louco do que nunca!
-Coitado dos ucranianos. Esse comunismo ainda acaba com o mundo!
O silêncio rompeu a barreira do som e fez-se notar por alguns instantes. Ouvia-se apenas a
música baixinha no fundo do bar e alguma conversa aleatória de quem passava na rua.
Cigarro aceso, gole final no chopp e o pedido de mais um. Agora as ideias fluíam em seu
cérebro, tudo era muito mais fácil e tão claro. Outro embate carregado de estereótipos e
exageros recomeça:
-Barbaridade é aquele Hamas também, viu. Todos bandidos, matando inocentes!
-Verdade! Essa faixa de gaza é um terror. Todo mundo se matando. Quem mata é o Hamas.
Mata crianças e o povo de Israel que não tem culpa de nada!
-Nessas guerras ninguém tem culpa, mas ver as crianças morrendo, olha é um absurdo.
Crianças tem de brincar e estudar!
Depois de longas horas debatendo na mesa do bar sobre as guerras no Oriente Médio
asiático e na Europa, o sujeito finalmente chega em casa, senta confortavelmente na
poltrona e liga a televisão no exato momento em que o jornal anuncia toda tragédia da
guerra no Congo, que já dura 30 anos, com muita violência e abuso sexual, mais de um
milhão e meio de pessoas desabrigadas, cidades inteiras completamente destruídas onde o
lixo e os entulhos saltam aos olhos. Não há mais escolas, nem lazer, também não há
grandes sonhos infantis, eles se resumem a um prato de comida e uma casa, sem contar as
mortes.
As pessoas não tem roupas para vestir, nada tem para comer, os surtos de cólera cada vez
mais comuns dizimam a população e, claro, muitas, incontáveis crianças mortas,
principalmente de fome ou doenças, um verdadeiro genocídio que dura três décadas.
O sujeito assiste a tudo sem nenhuma perplexidade ou comoção. Os olhos parados fitam a
televisão com um certo ar de desprezo. Em seguida ele boceja, acende um cigarro e meio
sonolento e indiferente dispara:
-A essa hora só tem bobagem na televisão!
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