Coluna Políticas Públicas e Sociais: 5º ano – Feminicídio: Da Letargia Estatal/Patriarcal
Colunista/ Historiador- Everton Villa ( Vevi )
“Assim veio sendo, sucedendo pela vida afora. Podia eu recusar, se quisesse, esse destino? Podia eu desembestar por outro rumo, procurando outra sina? Qual! Maligno é o tino de Deus, astuto, matador divino. Ele bem podia ter me feito um santo homem, cheio de unção e fé. Um homem bondoso, sofredor das dores do mundo. Não um bruto castigador, matador. Podia, mas o que ele fez, em sua sabedoria, fui eu mesmo. Assim como sou, e assim me aceito”.
Essa é uma citação do livro “O mulo”, de Darcy Ribeiro, onde o autor conta a história de um coronel, que no leito de morte necessita confessar seus pecados e deixar, para um padre desconhecido e de preferência jovem, sua herança.
A história está compactada entre o sertão goiano e mineiro, passando por várias cidades, de Luiziânia – GO, Águas Claras – DF, Grãomogol – MG, até Belo Horizonte, capital mineira e Paracatu, ainda no sertão mineiro.
Nessa obra Darcy Ribeiro faz uma crítica pesada sobre o coronelismo e a dominação senhorial na sociedade goiana e mineira daquela época, aliás, não apenas dessas duas, onde a obra está ambientada, as sociedades brasileiras no geral, estão alicerçadas e formam-se nesse consenso absoluto de dominação de classes, após a abolição. Portanto, a partir dos anos 1920, o Brasil é um país com cercas, onde o mais forte faz as leis, e no interior dos Estados, os coronéis mandavam prender e soltar.
Embora a obra seja fictícia, é também rica em fatos históricos e com uma crítica perfeita, afinal Darcy foi um grande antropólogo e historiador e poucos conhecem a história deste país quanto ele, não é exatamente sobre isso que falarei, e sim, sobre a citação, a qual iniciei esta coluna. Caso julgue necessário, prezado leitor (a), fique à vontade para ler novamente o início.
Philogônio Maya, personagem principal da obra, escreve que se ele é assim, um bruto, matador, foi Deus que o fez, sua imagem e semelhança, então seria Deus também um bruto, matador, selvagem?
Por certo que não! A questão aqui não é de cunho religioso. O personagem lamenta ser o que é, porém dentro de si, na fé que sua intelectualidade permita que alcance, ele culpa ao seu Deus aquilo que o fez, um selvagem.
Parece natural do homem (sexo masculino), achar culpados quando sua existencialidade surge ameaçada, quando seu ego, sua confiança e até mesmo sua masculinidade parecem confrontá-lo. Então seu instinto selvagem, a vontade de poder que Nietzsche explica e já trouxe por aqui, resolvem falar por si. Assim chega a violência humana, a força, a crueldade, a morte.
Nunca antes os homens assassinaram tanto mulheres quanto por essas épocas, em pleno século 21, arrisco a dizer, mesmo na idade média, onde nascer mulher já era “arranjar problemas”, a taxa de mortandade era tão elevada.
Definitivamente não sou psicólogo e não tenho propriedade para falar, mas todos os dias vejo homens matando mulheres por motivos torpes. Fim de relacionamentos, acesso de fúria momentânea, estresse de trabalho, excesso de álcool… enfim, desculpas sob desculpas, que geram mortes sob mortes. Ontem mesmo um pai atirou na filha por uma discussão em relação ao presidente “Trump”! Pasmem, discurso político! Discurso de ódio! Pai e filha!
Depois de tantas mulheres assassinadas por homens e suas desculpas esfarrapadas, iguaizinhas as do personagem da obra, que com medo da morte busca conforto em suas dores acusando seu Deus, os políticos resolveram fazer um pacto para cessar esses crimes. Claramente é uma atitude louvável, porém letárgica, atrasada, vacilante, sinônimos da cultura brasileira, estereotipada e patriarcal, onde primeiro precisa-se de muita, mas muita estatística (leia-se mortes), para depois sim tomar uma atitude.
Existem muitos Philogônios soltos neste país, muitos mulos, sôfregos, abusadores, aliciadores. Estão por toda parte, por isso a letargia, a demora pela tomada de atitude e a ineficiência na resolução do problema.
Antes é necessário atravessar barreiras quase intransponíveis. Antes é preciso alimentar o gulo, os egos do machismo na sofreguidão de mães e filhos, no poder absoluto de querer ter, ainda que sem consentimento, com violência, pois foi assim que Deus no fez, homens.
Isso é nojento. É uma patifaria. Um escárnio. E ainda é uma realidade cruel e sem pressa alguma de acabar.
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