Um pedido de desculpas: Sujeira se varre para debaixo do tapete
Colunista, Historiador- Everton Villa ( Vevi )
Era o Quilombo do Macaco onde Ganga Zumba era o rei, ainda um jovem rapagão, Zumbi acompanhava os passos do tio e esperava calmamente a hora de assumir o trono e tornar-se o líder que a História conheceria.
Ganga Zumba foi chamado pelo governador Pedro de Almeida da Capitania de Pernambuco para fazer um acordo de “paz”. Ganga Zumba entra pela principal rua de Recife, desfilando, imponente, de lança na mão e coroa na cabeça. Caminha calmo, forte, cabeça erguida, vibrante, é rei. Um rei que só ele poderia ser, porque era da corte real do Congo, já os governadores das capitanias nada eram além de bajuladores da corte portuguesa.
Ganga assina um contrato que desgraçaria sua vida, as pessoas do Quilombo do Macaco sairiam dali e estariam livres em outro lugar, porém os escravos que eventualmente fugissem de seus senhores e fossem buscar abrigo no Quilombo deveriam ser entregues aos seus senhores. Ganga assinou! Zumbi, o sobrinho e metade do Quilombo se revoltou.
Teorias apontam que Zumbi teria envenenado o tio e assumido o Quilombo, agora dos Palmares, mas o mais provável é que Ganga Zumba tenha sido assassinado pelos portugueses junto com as pessoas que seguiram seu líder para o novo local proposto pelo governador, uma dura armadilha que resultou em metade do povo do quilombo morto.
Corta para 2025. A ministra do STF, Cármen Lúcia, faz uma espécie de desabafo, citando letras fortes do cantor Emicida (cantor sensacional, diga-se). A ministra, em seu pronunciamento, aponta violações dos direitos das pessoas negras neste país.
A militância da esquerda, hoje fraca, pouco estudiosa e improdutiva achou de extrema importância e urgência o desabafo emotivo da ministra. Para este que vos escreve soa como um escárnio, vamos aos fatos do ponto de vista de um educador, historiador e, claro, crítico que sou.
Sempre que uma ministra ou ministro do STF afirma não conseguir viver em um país com tamanha injustiça social, é admitir que existe flagrante violação “massiva” dos direitos dessas pessoas, afinal a Constituição de 1988, feita por políticos possivelmente democratas (eu sinceramente discordo e duvido), insiste em dizer que todas as pessoas que vivem neste país tem os mesmos direitos. Portanto, se um ministro do mais alto escalão do 3 poderes brasileiros, admite que há essa violação e não suporta isso, é a mesma coisa que dizer: “Temos problemas de racismo e desigualdades sociais no Brasil, sabemos disso, mas a culpa não é nossa, seguiremos tentando achar os culpados”. A procura é pelos culpados, jamais a procura será pela solução dos problemas. Se algum dia acontecer isso, a sociedade branca e elitista e a classe média que teima e acredita erroneamente que um dia será alta, ficaram alijados do jogo político, e a maioria negra desse país assumiria efetivamente os cargos políticos e públicos importantes e quebrariam para sempre as correntes da sociedade escravocrata. Isso jamais vai acontecer!
Outro ponto fundamental: As Universidades públicas ainda estão discutindo o olhar de Capitu, ainda estão marejados com os devaneios do pobre Dom Quixote. É terrível! O papel das Universidades públicas é justamente discutir as desigualdades sociais. A comunidade científica do ensino público superior nunca pensou nem fez nada para diminuir esses abismos sociais, sobretudo na educação. Não existe educação gratuita, o que existe é escola e universidade gratuita, educação e conhecimento acadêmico/científico de qualidade, não!
As escolas públicas ainda falam sobre o funcionamento dos engenhos de cana, sobre o açúcar mascavo de qualidade vendido para o mercado europeu. Entretanto não debatem sobre como a colonização e a formação da sociedade brasileira impacta a vida das pessoas negras no Brasil até os dias de hoje. Não discutem os cadeados escondidos atrás das togas de deputados e ministros que abririam as correntes e as senzalas e implodiriam esse país numa realidade crua e inevitável.
A violação massiva dos direitos das pessoas negras e as desigualdades sociais deste país são problemas dos brancos! São problemas da sociedade branca e dos políticos brancos! Portanto cabe aos brancos resolver, o negro é a vítima. Se um político aponta esse problema e não é capaz de resolvê-lo, é o mesmo que dar um tapa, um cuspe na cara da sociedade negra brasileira.
Quanto a militância da esquerda, é necessário muito mais estudo e menos “like” em políticos panfletários. A militância da direita inexiste para essas causas, afinal ela ajuda a diminuir espaços. Tudo que o negro conquistou nesse país resume-se a um feriado. Absurdo!
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Soeli Scheit
Excelente matéria parabéns colunista Vevi
Anônimo
Obrigado, Soeli.
Anônimo
Parabéns Vevi, se entendi o q vc diz: Vitimismo e falsas homenagens q as pessoas q se dizem líderes dos demais tentam usar pra conquistar simpatia e dinheiro, não enchem a barriga e muito menos tiram alguém da ignorância intelectual.
Os comentários estão fechados.
3 comments