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Coluna Políticas Públicas Sociais: O Homem Invisível

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Coluna Políticas Públicas Sociais: O Homem Invisível

Colunista, Historiador: Everton Villa ( Vevi ) 

Despertou num sobressalto, afoito e desesperadamente agoniado com o som insuportável do despertador do telefone e pensou alto: – Podem inventar o som mais tranquilizador possível de um despertador, mas quando ele de fato despertar seu som é diabólico e te põe louco pela manhã!

Lavou o rosto, escovou os dentes, vestiu uma calça jeans, calçou os tênis e procurou no monte de camisetas uma em especial, do Pink Floyd, sua banda preferida. Novamente refletiu: “Quem ainda ouve Pink Floyd? O que se ouve hoje em dia?”. Subitamente olhou para o espelho a barba grisalha e o cabelo ralo o fizeram rapidamente trocar a camiseta por outra de gola polo, azul-marinho. Outra olhada rápida no espelho e uma afirmação conclusiva e decepcionante: -Camisa polo azul-marinho, devo andar doente!

Mochila nas costas, canetas, cadernos e livros pesadíssimos, embora não tão pesados quanto sua consciência antes de levar o cigarro até a boca e acender o isqueiro. Aquele “click” insistia em deixar o ato de fumar mais poético, não era charme, ele sabia, deixou de ser no final dos anos 70, mas era uma arte ver a fumaça subir enquanto seus pensamentos tentavam fluir na fumaça tóxica daquele companheiro deprimente, pensou em afogá-lo na pia da cozinha, mas envergonhado e calculista disse: -Que se dane! E saiu caminhando rumo a mais um dia de aula.

Professor nunca foi uma grande profissão, deveria ser, mas não é. Olhando pelo lado financeiro então, é suicido. Não entendia o que o levara para uma sala de aula, não conseguia mais relacionar sua profissão com algo produtivo, perdera em algum esgoto da cidade a paixão de ensinar, perdera de tanto ser humilhado, ameaçado, perdera por ter sua dignidade violada por incontáveis vezes, ponderou… Aliás sempre preferiu ponderar em vez de reclamar, de brigar, de gritar, estava errado, ponderou. Riu de si mesmo enquanto lembrava de um pai que o ameaçara e dissera que ele era uma piada. Gostava de piadas, piadistas são bons, inteligentes e sarcásticos, e geralmente deixam de ser professores para virarem comediantes e verbalizarem no palco tudo aquilo que jamais poderiam sendo professores, riu de novo.

O dia correu sem maiores anormalidades, ele falando muito, sendo muito ignorado, sensação de invisibilidade, escuridão e agora, depois de alguns anos, de conformidade, de aceitação, não ser visto já era previsível.

Voltou para casa caminhando, era bom olhar a cidade. As pessoas não gostam mais de caminhar, compram dois, três carros por família e fazem tudo correndo, inexplicavelmente cultuam o prazer de sofrer as agruras da pressa, do esgotamento físico, da busca enviesada por dinheiro, status, ou algo que as façam ser maiores, melhores, sei lá.

Por um instante aquele professor invisível, dando carona para sua mochila pesada, percebe que aquilo tudo era exatamente o que nunca quis. Correr para ficar rico, para ficar não, para tentar, sempre tentar, envelhecer tentando, por que querer mais que todo mundo e não simplesmente apenas querer alguém. Que burrice!

Olhou para o céu que levava o sol embora e trazia a escuridão e pensou no filósofo Nietzsche, quando ele escreveu: “E aqueles que foram vistos dançando, foram julgados insanos por aqueles que não podiam ouvir a música”. Sacou do bolso o maço de cigarros, levou um até a boca e: “click”, que se dane! E sorriu novamente!