Construções da Sociedade Brasileira e suas Disparidades
Estou lendo um livro sobre a história do Brasil colônia. Na verdade conheço bem a história do Brasil colonial, mas visito outras obras, de doutores diversos, para ter diferentes pontos de vista, para buscar mais embasamento teórico e aprofundar meus conhecimentos e minha criticidade, e por agora, para ver se a história não mudou, afinal é um período onde se tenta colocar em cheque as descobertas arquelógicas e pesquisas científicas, onde os maiores absurdos servem de argumentos para alastrar mentiras e queimar o conhecimento de vidas inteiras de pesquisadores nas mesmas fogueiras que se queimam pneus, quando reacionários acham que ditadores conspurcam democracias e os mesmos, hipocritamente, exigem anistias para golpistas, falam de liberdade e censura.
Apesar de parecer uma crítica política (por um lado é isso mesmo), mas não é apenas isso. A história do colonialismo está de fato entranhada na sociedade brasileira poque foi dessa maneira que ela foi lucrativa. Foi esse o jeito de produzir riqueza no Brasil do século XVI até boa parte do XIX, e é aqui que analiso um pouco da sociedade, mas uma sociedade menor que escapa aos olhos da grande história do período colonial.
No emaranhado dos livros descubro a filósofa pernambucana Maria Gouveia. Ela, por sua vez, me leva até a poesia de Manuel Bandeira e um filme, bem curto, chamado: O poeta do castelo gravado em 1959 (eu acho) e disponível no YouTube onde o autor aparece citando suas poesias no seu dia a dia.
Bandeira é a terceira geração de uma família que fez fortuna nos engenhos de cana-de-açúcar, da mesma forma que a filósofa Gouveia, também neta de dono de engenho, e ainda o historiador Gilberto Freyre, também terceira geração de dono de engenho.
Além de partilharem as coincidências de serem netos de senhores e pernambucanos, os três intelectuais viram a formação social pernambucana e brasileira e as influências que seus avós tinham na sociedade pernambucana, Gouveia nem tanto poque nasceu na década de 1940, mas Bandeira e Freyre, viram essa transformação e sentiram na alma os males de um país onde sua sociedade elitista jamais se preocupou com o pós colonialismo, e tão somente libertou os negros e deixou-os que se virassem da maneira que o diabo gosta, e foi atrás de arranjar novas maneiras de enriquecimento.
A partir da segunda década dos anos 1900, eles viram os moldes dessa sociedade florescer pós escravidão. Gilberto Freyre escreveu talvez o livro mais importante da história da sociedade brasileira: Casa Grande e Senzala. Depois publicou Sobrados e Mucambos que complementa sua visão da sociedade brasileira.
Bandeira vai para a poesia, é tuberculoso, sofre com a doença, acha que vai morrer, não morre. Morrem seu pai, depois a mãe, a irmã e finalmente o irmão, ele, quase morto ainda menino, não morre, fica fazendo poesia, escrevendo a sociedade pernambucana, o Recife, aquilo que não podia fazer por ser uma pessoa doente.
A pedido de Freyre escreve “Evocação do Recife”, é sensacional. Certa altura ele descreve: “Lá longe o sertãozinho de Caxangá/ Banheiros de palha/ Um dia vi uma moça nuinha/ Ela se riu/ Foi o meu primeiro alumbramento”.
Bandeira, Freyre e Gouveia abriram o círculo. Seus avós ricos, donos de engenho, populares e influentes. Seus pais foram estudar, o pai de Freyre virou magistrado, de Bandeira engenheiro, de Gouveia não sei, mas tinham salários, rotinas, já não eram senhores, ao passo que eles, a terceira geração, viveram, não direi pobres, no entanto o dinheiro nunca lhes bastou, não procuravam o status, o conforto da ilusão de parecer o que o dinheiro pudesse dizer que pareciam, de face astuciosa e o intelecto medíocre, de trejeitos finos, mas com sérios desvios de caráter. Definitivamente, não!
Tornaram-se importantes na História por suas obras, pela contribuição que dão enquanto fontes riquíssimas de pesquisa e aprendizado. Quanto aos que não os conhecem, bem, sempre há tempo, e se não quiserem entender um pouco mais sobre a história dessa sociedade burguesa e intolerante, basta seguir queimando, depredando, exigindo fim de espaços públicos e culturais e esbravejando gritos de liberdade!
Colunista, Historiador- Everton Villa ( Vevi )
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