Histórias Curtas: Fragmentos de Reprodução das Desigualdades

Histórias Curtas: Fragmentos de Reprodução das Desigualdades
Colunista, Historiador: Everton Villa ( Vevi )
Ele não tem um nome predefinido, porque justamente poderia ser qualquer nome, de preferência comum, não composto, sem engrandecimentos que não lhe competem socialmente. No entanto, ele é brasileiro, pobre, tem cor, o que pode desagradar, trabalha desde os doze anos, e isso, indubitavelmente, o define: sujeito sem nome. Primeiro foi ajudante de oficina, agora é trabalhador de construção civil. É cotista, entrou na universidade através de programas sociais, não tem amigos ali. A universidade é longe do seu trabalho, o sujeito sem nome leva a roupa na mochila e toma banho na mesma água que usa para fazer a massa na obra durante o dia. A água é fria, mas seu suor é quente, seus sonhos também. O sujeito sem nome não sofre de coitadismo, não há tempo para isso. Toma banho frio na mangueira, e em cinco minutos está na parada pegando o ônibus para chegar na universidade e entrar em sala de aula, sempre dez minutos atrasado.
– Professor, assim não dá! O cara “tá sempre atrasado”, nos tira toda concentração!
– É verdade, “pô”! Tem que se organizar e chegar na hora como todo mundo aqui, “tá ligado”!
A balburdia toma conta da sala com a massa aprovando a exigência de que o sujeito sem nome chegasse no horário. As únicas vozes que não se ouvem é a do próprio sujeito sem nome, do professor e de uma guria branca, de cabelos castanhos, que era lembrada por não falar muito e por usar durante todo aquele inverno, um poncho peruano feito de lã de alpaca.
O professor meio desorientado, acaba caindo naquilo que Nietzsche viria chamar de: O indivíduo e a massa. Ocorre quando a grande maioria das pessoas segue o senso comum, a moral estabelecida. Não faz questionamentos, não levanta hipóteses, nem busca seus próprios valores.
Conformista e envergonhado, o professor ratifica:
– O senhor esteja aqui amanhã no horário, do contrário não assistirá a aula!
Quase dez anos passaram. O sujeito sem nome segue na construção civil, boleando sacas de cimento. Já não tem seus 19 anos, nem sonhos tão urgentes e quentes quanto tivera dez anos antes. O curso de direito ficou para trás, esquecido na balburdia das vozes que faziam exigências naquele dia, e agora, aparece na lágrima que escorre de seu rosto frente ao túmulo da mãe que partiu achando que o filho seria um doutor.
O sujeito sem nome ainda é o mesmo, sem voz, sem vez. O lado bom é que não precisa mais tomar banho na mangueira da construção, nem gastar dinheiro com transporte público para atravessar a cidade até o campus. Quanto a guria do poncho de lã de alpaca, também nunca mais ninguém ouviu falar.
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