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Coluna: Conchavo não é Coalizão

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Coluna: Conchavo não é Coalizão

Conchavo não é Coalizão

Colunista, Historiador- Everton Villa ( Vevi )

Em muitos momentos neste espaço destaquei a importância de Nietzsche em minhas leituras, estudos e pesquisa. Gosto da maneira como o filósofo expressa seu pensamento. Geralmente Nietzsche é voraz, feroz, espetacularmente ácido em suas críticas, sobretudo em relação a sociedade.

Para quem já teve a oportunidade de ler Nietzsche, deve saber que ele não era perfeito, longe disso. Como a maioria dos filósofos aos quais a contemporaneidade conhece e estuda, salvo algumas exceções, o machismo imperava. Eram extremamente misóginos e de uma insensibilidade que beirava a ignorância. Nietzsche e Schopenhauer, para citar dois, que eu particularmente conheço um pouco.

Por certo os tempos eram outros e em um recorte histórico é fácil analisarmos e obviamente não concordarmos com os filósofos e seus desrespeitos pelas mulheres.

Porém usei-os de exemplos para dizer que gosto de alguns pensamentos deles, não todos. Voltemos a Nietzsche: o pensamento do filósofo sobre política é algo que também discordo. Nietzsche faz críticas à democracia e ao igualitarismo, para ele esses dois pontos impediriam o desenvolvimento individual, e também que as pessoas pensavam em ser iguais porque temiam as diferenças. Para o filósofo valia a vontade de potência, uma força motriz que gerava a ação humana e a criação, o desenvolvimento.

Não posso concordar com o pensamento do autor, tenho sérias desconfianças de autoritarismos e conservadorismos, eles entranham a sociedade brasileira desde a escravidão, mas posso sim fazer uma analogia política bastante interessante.

Hoje vivemos em um país onde a democracia está sujeita à corrupção e a conspurcação. Explico: tive um professor na faculdade e muitas vezes debatemos isso. Ele chama o processo pelo qual os governos fazem suas bases políticas de governo de coalizão, eu chamo de conchavo.

Veja bem, sapiente leitor, não estou falando sobre alianças para ganhar uma eleição, mas sim para governar o país.

Lula tem sérias dificuldades com parlamentares que são base do governo, recentemente Bolsonaro teve as mesmas. É impossível governar um país quando os políticos já estão pensando em 4 anos depois.

O PSD por exemplo, tem ministros no governo, portanto é base, o presidente do PSD é o Kassab, base e ministro do governo de Tarcísio em São Paulo, logo um possível candidato contra o governo ao qual hoje ele é base. Conseguem perceber a bola de neve e quantas marionetes fazem parte disso tudo, por isso eu chamo conchavo, não tem um intuito final positivo, e sim para esfacelar, para impedir a conclusão, é, portanto, um conluio.

Não estou defendendo governo nenhum, isso deve estar claro, alerto apenas para esses fatos. Esse conchavo é uma mixórdia, uma mistura de muitas coisas reunidas em uma base que não tem como se sustentar, é apenas para segurar cadeiras e não perder espaços no jogo político.

Não há meios de governar um país que é imenso geograficamente e muito distinto politicamente. Os políticos da região sul tem pensamentos completamente diferentes dos políticos do nordeste ou do norte, mas periodicamente estão juntos em bases governamentais, não em posicionamentos políticos, tampouco em ideologias.

Não sei como esse imbróglio se formou, certamente por dinheiro e poder, afinal passamos por um longo período ditatorial e as formações partidárias deram lugar a luta para restaurar novamente a democracia, portanto a nova política é recente, está logo ali, no final dos anos 80, contudo o congresso é limitado, espúrio e decadente.

Ulisses Guimarães, presidente da Assembleia Constituinte e responsável por inaugurar a nova ordem democrática em 87/88, disse que as pessoas estavam reclamando que o congresso era ruim, ele complementou: “e os próximos serão piores”!

Nossos políticos são fracos em sua oratória, desrespeitam seus colegas quando mexem em celulares e não os ouvem, ignoram assuntos de políticas públicas, interessam-se apenas por conchavos, por mancomunação, insisto, coalizão é outra coisa, professor!