A submissão pela vontade de poder
Colunista- Everton Villa ( VEVI )
Um romeno nascido na Transilvânia ficou muito famoso no final da idade média por usar métodos assombrosos para torturar e matar seus inimigos. Trata-se de Vlad III, ou Vlad – o empalador, nome muito mais coerente e que faz total relação com o príncipe da Valáquia.
Vlad nasceu em um momento de muitas disputas, seu pai, Vlad II precisou mostrar fidelidade ao império otomano para não perder o trono, pagando altos impostos e enviando ao Sultão Murad II, dois filhos, numa espécie de garantia e continuação de reinado, um deles era Vlad – o empalador.
Vlad foi criado dentro do império otomano, aprendeu táticas de guerra, a lutar, e a cultuar a religião islâmica dos turcos otomanos, diferente de suas raízes que eram cristãs ortodoxas. Mais tarde ele retorna à Valáquia para herdar o trono que fora do seu pai, agora morto. A partir daí, Vlad mostra seu lado mais aterrorizante. Ele faz questão de sempre acabar com seus inimigos da forma mais cruel possível. Arrancava pele das pessoas vivas, atirava outras em grandes caldeirões de água fervente, arrancava membros do corpo amarrando-os aos cavalos e fazendo estes correrem um para cada lado. Mas sua pior crueldade, foi a que lhe rendeu seu nome e fama de terrível e cruel. Vlad atravessava seus inimigos com estacas que perfuravam o ânus e saiam pela boca.
Antes de ser derrotado pelas forças otomanas no final da idade média, Vlad fez uma floresta de homens empalados, as cenas assustaram muito o exército otomano, de maneira que eles caminhavam em direção ao forte de Vlad e tudo que viam eram pessoas penduradas em estacas que perfuravam seus corpos, eram quilômetros dessa cena assustadora, que mexiam com o psicológico dos soldados. Vlad foi o primeiro homem a usar essas estratégias de guerra psicológica. Seu fim também foi trágico, teve a cabeça decapitada e exibida em Constantinopla, capital do império otomano.
Outro dia lembrei-me de Vlad, enquanto assistia a notícia de que alguns torcedores de um time de futebol agrediram um homem, torcedor do time rival, com uma barra de ferro, onde tal qual o príncipe da Valáquia fazia, tentavam introduzir a barra por onde, todos já devem intuir.
Havia muitas pessoas no entorno do estádio onde a agressão ocorria, pessoas suficientes para conter os agressores e impedi-los de cometer tamanha crueldade, no entanto, toda essa massa de gente nada fez para acudir o homem das violências que lhe imputavam. Nada! Nenhuma reação! De ninguém! As pessoas simplesmente filmavam a cena, possivelmente para divulgarem em redes sociais e, com o perdão da palavra, “cagarem teses”, demonstrando sua indignação e desprezo pelo ato, mas tudo, é claro, na tranquilidade de suas casas, bem longe dos malfeitores.
Inacreditável ponderar sobre isso e não pensar sobre uma sociedade doente, indiferente e, igualmente a Vlad, cruel. Aquelas pessoas não precisavam usar de violência para conter os agressores, apenas deveriam ter se mobilizado, enquanto um contingente muito maior e se postado em frente ao agredido, impedindo o ato. Seria fácil interromper a covardia, mas preferiram optar pelo show, preferiram ver a desgraça alheia aos olhos nus, e filmar o crime como se fosse um filme muito aleatório do Woody Allen.
Isso tudo é muito pesado, porém estranhamente não me choca mais. Minha referência para compreender esses atos falhos da sociedade está em Nietzsche. Quando o filósofo fala sobre vontade de poder. A vontade de poder é uma força motriz fundamental da natureza humana. Todas as ações humanas vão sempre ao encontro dessa vontade de poder, não apenas sobre os outros, mas sobre si também. É sempre derrotar o mais fraco, demonstrar poder e em seguida tentar a autossuperação.
As pessoas queriam aquilo. Escolheram ver o homem ser violentado. É cruel, eu sei, mas é o amor fati, que pode ser traduzido como amor ao destino, aceitar tudo que há de vir.
Sou um leitor assíduo de Nietzsche. Gosto da maneira como ele enxerga a sociedade ocidental, suas críticas ácidas à moralidade e costumes que cada vez mais me convencem que não servem para mais nada que não seja destruir e tornar sociedades poderosas e aniquiladoras de qualquer coisa que se mova.
Bela reflexão